Trabalhar na Itália

 

 Imagem (6)Olá pessoal, hoje vou falar sobre a questão do trabalho na Itália. Para quem sai do próprio país e deseja integrar-se em uma outra sociedade, o trabalho é a ponte que permite fazer essa travessia. O processo de adaptação em um novo ambiente por si só já é algo bem complexo, por isso, obter o máximo possível de informações a respeito da situação atual do país para o qual se pretende imigrar é de fundamental importância para avaliar as próprias possibilidades e preparar-se adequadamente para ultrapassar as barreiras. Para ser sincero, o que mais vejo acontecer em relação aos imigrantes que chegam aqui cheios de esperança, é justamente um desapontamento inicial devido às dificuldades que devem enfrentar na busca por uma vaga de emprego condizente com o próprio percurso de formação e com as elevadas expectativas que foram criadas ao longo de todo o processo de imigração. Minha filha sabiamente colocou diante da sua escrivaninha um cartaz com os seguintes dizeres: “Crie um jumento, um cavalo alado, um bode vesgo ou até mesmo um pônei maldito. Mas jamais, EM HIPÓTESE ALGUMA, crie expectativas!”. Adoro esta frase, mas sei quanto é difícil aplicá-la no momento de tomar a decisão de abandonar o próprio país e deixar tantas coisas para trás em troca de… não se sabe bem o quê. Então, vamos falar de como as coisas estão na Itália. A partir de uma matéria publicada pelo jornal “La Stampa”  no dia 12 de outubro de 2015, pode-se ter uma ideia clara da percepção que os italianos têm sobre o atual mercado de trabalho. Fala-se de uma mudança cultural na qual é necessário desistir da ideia de “estabilidade” e concentrar-se em realizar um “percurso” profissional, ou seja, muitos jovens deverão “inventar” um novo trabalho por conta própria ou aceitar a possibilidade de se transferir para outros países a fim de perseguir seus ideais. Isso se aplica principalmente àqueles que têm formação superior e, muitas vezes, elevados níveis de especialização. Por aqui, fala-se muito sobre o fenômeno da “fuga de cérebros”, justamente porque a Itália oferece aos jovens formação pública de alto nível, mas depois não é capaz de absorver toda essa mão de obra especializada no mercado de trabalho.

delocalizzazioni_940Com relação ao setor industrial, a situação tem se mostrado ainda mais preocupante. A Itália não escapou do irrefreável processo de globalização econômica com a subsequente deslocalização da indústria para países que oferecem condições mais “vantajosas” para o empreendedor, ou seja, mão de obra mais barata e isenção de taxas e encargos sociais. Tudo em nome do aumento da competitividade, sem pesar os distúrbios relacionados ao crescente desemprego de uma camada da população que não foi preparada para enfrentar essa mudança e que não pode contar com leis que penalizem este tipo de prática. Em miúdos, pagar aos operários um salário justo em Euros e arcar com os custos da manutenção do bem-estar social – direito que foi conquistado a duras penas pelos trabalhadores ao longo de muitas décadas de mobilização – está se transformando cada vez mais em uma obrigação que deve ser superada e que deve subsistir apenas nas páginas dos livros de História. Infelizmente, essa afirmação não é apenas uma crítica de pessoas pessimistas e desatualizadas que pretendem “congelar” o país em uma condição de fechamento à modernização da economia. A grande maioria das pessoas acredita que o problema do desemprego seja hoje um dos maiores desafios para o governo, que encontra dificuldades imensas para fazer reformas capazes de trazer soluções válidas. Um exemplo da dificuldade que vem sendo criada com a falta de leis que protejam o “Made in Italy” realmente produzido na Itália é o episódio ocorrido na cidade de Formigine, na Província de Modena, em 2013,  e que foi noticiado pelo Jornal “Il Fatto Quotidiano”: os operários entraram em férias e quando perceberam, a fábrica já tinha sido quase completamente esvaziada e as máquinas transferidas para a Polônia. Os 40 empregados fizeram uma barricada na frente do estabelecimento para impedir a retirada das últimas máquinas. Segundo o sindicato, a resposta que obtiveram foi a seguinte: “aqueles que desejam manter o emprego, devem se mudar para o país da Europa Oriental”. Os proprietários não atendiam o telefone e o prefeito, que exigia uma explicação, não conseguiu receber uma resposta. Este foi um caso emblemático, mas situações semelhantes estão acontecendo com muita frequência. Então, que fique bem claro o conceito: não é fácil encontrar emprego de operário na Itália.

Outro fator que vem agravando ainda mais a situação, é o aumento do fluxo migratório de pessoas provenientes da África e do Oriente Médio, que, na maior parte dos casos, chegam sem recursos econômicos adequados e precisam de ajuda humanitária. Muitos são considerados vítimas de guerra e de situações de calamidade e recebem asilo. Embora não seja a origem dos problemas, a imigração é instrumentalizada por partidos políticos e militâncias extremistas como algo que deve ser combatido e o trabalhador estrangeiro muitas vezes é classificado como “aquele que veio roubar o emprego dos italianos” e discriminado em termos de reconhecimento dos direitos trabalhistas e remunerativos. Essa postura incorreta contribui para a geração de empregos não registrados, com muitas desvantagens para os trabalhadores. Outro fator recorrente é a admissão de estrangeiros qualificados em funções que não exigem qualificação, como é o caso de muitas mulheres com formação universitária que trabalham como assistentes de pessoas idosas, as famosas “badanti”, sem as quais o sistema de saúde italiano entraria em colapso e para as quais foi aberta uma brecha na lei de imigração que despenaliza e simplifica a regularização dos vínculos de trabalho e permite a permanência delas no país.

imagesApesar dos dados não muito encorajadores, há sempre um modo positivo de encarar a situação. É preciso prestar atenção nas novas oportunidades que são criadas e valorizar os pontos de força inerentes a cada perfil. Um exemplo de iniciativa que promove a instauração de boas relações entre empregado estrangeiro e empregador na União Europeia foi a adoção, em 2009, do Cartão Azul. O site dedicado a este programa dá as seguintes informações: “ o Plano Cartão Azul da UE pretende tornar a Europa um destino mais atraente para pessoas de educação superior que não sejam naturais da União Europeia. Todos os estados-membros da UE, à exceção do Reino Unido, Dinamarca e Irlanda, participam no plano Cartão Azul da UE. Pessoas altamente qualificadas optaram no passado para destinos como os Estados Unidos da América, Canadá ou Austrália. A iniciativa europeia possui algumas características que a distinguem e que ajudarão a Europa a tornar-se o destino migratório favorito do mundo: condições de trabalho e de salário iguais aos nacionais, direito a uma série de garantias sócio-econômicas, condições favoráveis para reunificação familiar, perspectiva de residência permanente, liberdade de associação.”

No caso de pessoas que ainda não possuem a cidadania italiana e que images (5)
pretendem entrar em contato diretamente com o empregador ou trabalhar como autônomo, é preciso conhecer bem os trâmites que devem ser seguidos para a admissão regular de um trabalhador estrangeiro na Itália. O site “Diritti e Risposte per comprendere e risolvere” traz informações detalhadas sobre o assunto. Outro site interessante é o Eures – Portal Europeu da Mobilidade Profissional, no qual é possível procurar por vagas de emprego na União Europeia.

Outro fator que deve ser levado em consideração é o domínio da língua italiana. Muitos têm a ideia de que basta dominar bem o inglês para encontrar um bom emprego na Itália, mas isso geralmente não é possível, exceto em casos muito específicos. O ideal é aprender bem o idioma do país de destino antes de sair do Brasil, pois isso ajuda a evitar uma série de problemas.

images (4)De acordo com pesquisas realizadas por instituições renomadas, existe a previsão de que até 2020 no mercado de trabalho haverá um aumento da oferta de mão de obra, que se tornará superior à demanda. Por isso é preciso informar-se a respeito das carreiras que devem ser evitadas devido à saturação de profissionais no mercado – como é o caso dos arquitetos, veterinários e técnicos em prótese dentária – e conhecer as profissões que serão mais requisitadas no futuro, tais como: funcionários do setor de restaurantes e de serviços turísticos, vendedores e pessoal qualificado para lojas e vendas no atacado, funcionários do setor de construção civil (operários especializados e técnicos de manutenção de prédios), empregados domésticos (limpeza, serviços domésticos e assistência a idosos), funcionário do setor de atendimento, informação e assistência ao cliente e motoristas de meios de transportes. Também haverá muita necessidade de enfermeiros, químicos, empreendedores e empregados do setor agrícola, técnicos especializados na produção de alimentos típicos certificados, todos os profissionais ligados à implementação de fontes de energias renováveis, professores de educação física, intérpretes, tradutores, professores de idiomas, assistentes de direção, psicólogos, psicoterapeutas, responsáveis pelos recursos humanos das empresas, técnicos de informática, programadores, operadores de vendas online, operador de web marketing, engenheiros de gestão no setor mecânico, elétrico, civil, de automação, químico, de telecomunicações e eletrônico, trabalhadores manuais , principalmente instaladores de esquadrias, padeiros, confeiteiros, alfaiates, marceneiros e cozinheiros. Enfim, apesar de algumas restrições, de reformas desvantajosas para o trabalhador, tais  como o aumento da idade para a aposentadoria, a diminuição de garantias para o emprego estável, entre outros fenômenos ligados à acomodação do mercado de trabalho à nova ordem econômica, a Itália é um país que tem uma economia consistente que parece dar sinais de recuperação.

Para finalizar, deixo aos mais curiosos o link de uma publicação da empresa de recrutamento Hays que a partir da página 20 apresenta várias tabelas com cargos e respectivos salários na Itália. Abbraccio a tutti e buon lavoro!

Redação: Carlos Rizzotti e Mariângela Souza Ragassi.

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